" Há mais solidão num aeroporto
que num quarto de hotel barato,
antes o atrito que o contato."
(Zeca Baleiro)
sábado, 24 de agosto de 2013
Sobre Paixão.
Às vezes me olhas com uns olhos gulosos de quem quer me prender, me guardar. Essa vontade tão forte me faz sorrir mas também me aflige até a ponta dos dedos. Essa tua vontade reflete na minha, mas não será concretizada pois entendes que é um capricho passageiro.
Isso me tira o ar. Fico assim pois não há absolutamente nada que eu possa fazer. Aí fico desgastada, me desdobrando em mil formas de me ligar a ti nos mínimos detalhes, poucas palavras.
E me pergunto que paixão grudenta é essa, que não satura, não descarrega. Que categoria é essa de paixão agressiva, que te quer a todo o custo e ignora todo o meu bom senso?
Pois quando te vejo sinto algo próximo da arritmia. É exagerado, mas meu coração mal consegue se conter. As pupilas dilatam tanto que mal dá pra discernir a cor real dos meus olhos. E ainda assim espero conter tanta vontade no mesmo coração, torço todos os dias pra que essa paixão se canse, esfrie e finalmente me abandone. Pois teus olhares gulosos logo cessam, mas meus contornos não cansam de buscar teus encaixes.
quinta-feira, 27 de junho de 2013
Sobre dançar.
Começa assim: sonhei que a gente dançava. Uma música agitada, muito sambarock. Havia água por todo lado e parecia que o mundo desabava, mas, no
sonho, eu sentia que precisava dançar essa com você.
A verdade é: cada vez que você me estendia a mão para dançar eu dizia
que tinha dois pés esquerdos. Quer dizer, eu tinha vergonha de não saber dançar
bem. Você tinha aquele gingado, aquele dom (mentira-rs-). Era lindo ver você dançar. E no
sonho eu podia ser a dançarina dos seus olhos.
Um dia, nas profundezas da galeria empoeirada da memória, você me
ensinou a dançar diferente.
Apenas nós dois. Você me fez subir nos seus pés e deu até um nome para
esse passo. Tinha algo a ver com estrelas e astros. Era coisa de criança, mas
você se movia e eu ria alto, sentindo o cheiro do seu pescoço, pois cangote de
quem se ama é aconchego, pura paixão.
E acaba que eu já não lembro mais qual música a gente dançava. E quais
eram seus movimentos mágicos. Eu já nem sei quando pude admirar seus pés de
bailarino. Hoje, na verdade, eu até que danço, pulo, engano. Mas valiam mesmo
os passos sobre os pés. O cheiro de cangote. Algo a ver com estrelas e astros.
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sexta-feira, 21 de junho de 2013
Filmes de Romance.
Há um tempo não vejo filmes de romance. Acho bonito, até interessante, mas descarto sempre que posso.
O que há sobre filmes românticos é que eles usam a exceção. Normalmente uma pessoa larga tudo para viver um amor incerto, pelo simples sentimento de achar que aquele é o amor da sua vida. O que filmes de romance não mostram, é que, na maioria das vezes, o cômodo é bem melhor.
Gente acomodada sabe que não está com a pessoa que vai fazer seu coração palpitar todos os dias. Entende quando encontra o certo. Mas tem medo de sair daquele conforto, aquela relação que inclui a família, todo mundo gosta, todo mundo aprova.
Em filmes o cara sempre vai atrás da aventura, do talvez. A moça abandona o altar, o homem termina noivados... Enfim. Nos filmes a exceção é a regra.
A fantasia é bonita, mas não é justo que nos iludam. Não é certo achar que mesmo o possível amor da sua vida tendo outra ele pode largar tudo para ficar com você. Pois a vida real inclui outras pessoas que também tem sentimentos e vivem suas histórias.
Seria lindo se todo mundo que descobrisse não estar com a pessoa certa tivesse coragem de deixar o outro ir, mesmo que fosse para ficar só. Pois uma das coisas mais tristes é "manter" um relacionamento pelo puro medo da solidão.
Esse texto é um apoio aos acomodados do mundo. Que se libertem se aqui não for o certo. Que aprendam que amor é pleno, completa. Todos nós merecemos viver o amor das nossas vidas, a paixão arrebatadora, que nos fez suspirar por mil noites.
Vão viver seus filmes de romance. Mas todos sempre com finais felizes.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Sobre cartas.
"Mesmo assim, não lhe pareceram necessárias tantas explicações, embora pedisse a Fermina Daza o favor de não ler a carta.
_ Claro - disse ela - No fim das contas, as cartas são de quem as escreve. Não é certo?
Ele deu um passo firme.
_ Sem dúvida - disse. - Por isso são a primeira coisa que se devolve quando há um rompimento".
Ou não. Talvez o Florentino esteja errado. Esse trecho é de um livro que li recentemente, "O amor nos tempos do cólera", de Gabriel García Márquez. Ele tem um romance inteiro feito de cartas, mil cartas, recheadas de flores, perfumes e promessas. Um amor escrito, idealizado.
Cartas são presentes. Sempre me expressei melhor escrevendo. Esse é, afinal, meu elemento. Costumava fazer cartões de aniversário gigantes há uns anos, cartas enormes, ou pequenas, mas com um conteúdo considerável.
E acredito, muito mesmo, que podemos manter amores por cartas, se apaixonar, viver um a vida do correspondente. Hoje cartas são tão subestimadas que ganhar uma já é antiquado. Mas, para mim, nada substitui uma boa carta, escrita a mão, em páginas bonitas ou arrancadas de caderno, escritas no susto do momento, inflamadas de pura paixão, ou ponderadas e quase desenhadas.
Nosso melhor e nosso pior, cartas de amor e de raiva, letra pura, essência. Guardo cartas de anos atrás, porque é um prazer reler algumas e saber que em algum momento do passado alguém pegou uma caneta e me escreveu algo. Afinal, cartas são passado, são presentes.
terça-feira, 4 de junho de 2013
Sobre equilíbrio.
Subitamente tudo que acreditei e defendi com unhas e dentes há alguns anos parece errado, não faz mais sentido entre as minhas crenças. E eu vejo que o que me parecia certo há tanto tempo, hoje parece apenas banal.
O que é a vida senão um combinado de fases? Uma hora se quer tudo, em outra hora não se quer nada além de estar consigo mesmo. É pegar na mão e amar tão intensamente que ao pensar no passado não enxerga os momentos que se pensou no próprio bem estar. Para depois olhar para o próprio umbigo e pensar onde diabos ele esteve o tempo todo.
A vida se compõe por um punhado de sentimentos e vontades que muitas vezes nos cegam. Como o amor que exclui nosso senso de autopreservação. Ou a raiva, que apaga o senso do ridículo (e vive-versa).
Não apenas isso, mas muitas pessoas pensam tanto em si que esquecem dos outros. E tudo que conseguem ver no passado é o que fez, como foi que se saiu naquilo. É como tirar uma foto com as pessoas mais importantes da sua vida e não pensar no sentimento feliz de reunião, mas ampliar a foto apenas em si para ver se não saiu feio.
Eu demorei um pouco para chegar a um ponto que considero equilibrado. Onde consigo pensar em todos que eu quero bem sem me excluir e não enxergar os danos que uma relação destrutiva pode trazer.
Não quero o equilíbrio para sempre, porque às vezes todo mundo precisa se desestabilizar um pouco para lidar com tudo que pode lhe acontecer. Por enquanto eu vivo um equilíbrio. Quem sabe quais ventos virão me empurrar e em quais direções eu vou.
Nota -clichê- : "Vale mesmo é viver."
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quarta-feira, 1 de maio de 2013
Práxis agonizante.
O insistente abrir dos olhos agonizava seu sonho atordoado. A tentativa de fuga era inútil. Como de costume, aliás, nos últimos meses. Longos meses perturbados por dúvidas renitentes.
Acordou finalmente. As seis chamadas não atendidas quase se encontravam com os olhos inchados e remelas secas de uma noite mal dormida. A dor ainda se encontrava na vista cansada. Com certeza a consulta ainda não marcada com o oftalmologista não resolveria seu problema.
Cinco e meia da manhã, hora de teorizar a situação para enfim por em prática ideias que nunca se concretizam: Práxis-matinal-cotidiana-idealizada. Inútil costume.
Respirar fundo, engolir a saliva, discar o número.
“Não”.
O orgulho sempre fala mais alto.
A água gelada por hora resolveria. O banho mandava embora as palavras ditas e as poucas ouvidas. A toalha por fim enxugaria o arrependimento e o telefone tocaria em seguida:
“Bom dia”.
terça-feira, 23 de abril de 2013
Memorabilia.
Quando abro minhas caixas coloridas, gastas nos cantos, cheias de papéis, documentos e tantas coisas... Lá está você. É como um pedestal, nada obsessivo, mas é como também vive dentro de mim. Você está longe dos olhos, assim não o sinto no coração.
Nossos melhores sorrisos soterrados sob papéis velhos, provas, fotos e notas fiscais. Enterrados debaixo do pós-amor, da calmaria depois da tempestade. Sob as minhas mentiras, conquistas, vergonhas, orgulhos. As melhores poses e recadinhos trocados entre sms's (eu anotei tudo), todos emolduram sua imagem distante, milenar na minha contagem do tempo.
Porque você... Você é meu pôr do sol favorito. É como um reflexo perfeito na água pouco antes das gotas de chuva. É o último pedaço da melhor torta de chocolate, que a gente pega com a ponta da colher e saboreia cada partícula. Você é um milagre que me dá um beijo empoeirado e envelhecido entre os papéis.
Você é o traço de luz que fica grudado na retina depois que a estrela cadente passa. É o álbum de fotos depois da melhor das festas. Você é memória pura, papel amarelado que fica escondido e quando a gente acha, lê com nostalgia. Você passou. E nas traças do armário, nas fibras cardíacas, nos olhos mesmo que fechados, ficou.
terça-feira, 9 de abril de 2013
Coleção.
O meu coração quer te colecionar. Ele se esparrama, se pendura, dá cambalhota quando te vê, mas não confunda: ele só quer te enfileirar.
Ele quer te pôr na lista das raridades, quer se gabar sobre você. Você confunde minha ânsia, minha espera, acha que estou apaixonada, mas isso é truque ambicioso do meu coração, que só quer te faturar.
É que eu te ofereço muitas palavras, jogo muitas coisas sobre você, quando na verdade sou apenas marionete desse que está no centro, e não no lado esquerdo. Ele comanda, dirige.
O meu coração te quer como prêmio, é uma compensação depois de anos de maus tratos. É como uma vingança. Ele não vê a quem tem pureza, mas quer aqueles que podem ser colecionados.
Depois ele quer te exibir, te expôr numa estante de planos incertos, magoados. Tudo que não deu certo por pura falta de esforço dele mesmo. É maquiavélico, e te aviso antes que você caia na dele. É que ele tem lábia, tem beleza, tem doçura... E provavelmente vai enfileirar você de qualquer forma. Só o que posso garantir é que ele faz de tudo para você não se arrepender.
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