" Há mais solidão num aeroporto
que num quarto de hotel barato,
antes o atrito que o contato."
(Zeca Baleiro)

domingo, 30 de novembro de 2014

Fim de novembro...




Olhava fixamente através da janela semi coberta pela cortina. A cortina de espirais coloridos que ainda se encontrava ali, debatendo-se pelo vento, tão maleavelvemente. Cobriam a vista de Carolina esses espirais coloridos dançando fluorescentemente à sua frente ao som de Tiersen, enquanto seus pensamentos misturavam-se à chuva fina e fria do fim de novembro, ao piano triste de La dispute.

Seus pensamentos iam muito além de espirais dançantes, chuvas renitentes e longas fumaças tragadas. Seus pensamentos iam até lá, àquela época. A nostalgia era densa, bem mais que a fumaça. Tão presente que Carol chegou a pensar está revivendo aquela dor outra vez. Aquela dor que se fez muito necessária até. Pois sem ela jamais teria aprendido tudo. Conformado tudo. Sofrido tudo. Se rebelado contra tudo. Se libertado da mentira e aprendido.

Ela lembra. De olhos fechados, apertando as lágrimas calmas que escorriam sem serem enxutas da face pálida de frio, através dos óculos quebrados [naquela época]. O coração batia forte a cada vez que as notas da música iam fluindo, cada vez que o piano disparava. O filme vinha à mente.

O fim de novembro é quando, em sua memória, seus desejos ainda não realizados, suas saudades, suas dores, toda a merda de uma época vêm à tona tudo misturado. Sentimentos, sensações mistas às lágrimas que caíam ao som, à chuva, ao frio. À vontade de achar a tal felicidade que ainda não sabe se é verídica. Esperanças de fim de ano, de que as coisas mudem, de que tudo vá à merda, de que eles estejam sempre perto e que os outros vão embora. De que a música transpire sempre as sensações. De que suas vontades mais inconscientes, aquelas abraçadas com o ID, não a machuquem e nem a ninguém. Que seus medos não se concretizem e que ali mais à frente aperte a mão da invisível felicidade.

domingo, 12 de outubro de 2014

Entrelinhas...

Não te quero assim, não te quero meu, não te quero em vão. Quero tua cor, tua dor, teu calor. Tua pele, tua vividez, teus brilhos.
Mas não quero teu olhar, tua languidez, não quero teus abraços reconfortantes depois de cada vez.

Quero me afogar nos teus cheiros e emergir para não rever. Pois tens que fugir, tens que sumir, desaparecer de mim. Mas não te quero tão longe a ponto de não poder te ter nas horas que me acordo. Nas horas em que tá escuro e eu te queria nas mãos, te queria no abraço.

Pois ao mesmo tempo te quero na linha, na palavra, na ligação. Eu te quero na contradição, na distância, nos quilômetros. Te quero ao alcance do fio do telefone, mas longe o suficiente do alcance do meu coração calejado.

Não te quero dela, mas não te quero pra valer. Te quero no esquecimento, na raiva que se apaga com o beijo, na insegurança, na penumbra. Te quero perto, longe. Onde o coração não está, mas o passado predomina nas entrelinhas. Quero te esquecer, te tendo, e vice-versa. Quero te amar, amor, te perdendo.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Café preto requentado.




Às vezes, quando falam de ti, eu penso algo do tipo "É, ele é legal" e sempre rolam aquelas definições clássicas: "Gente fina", "gente boa", "parceiro".
Me dá aquele geladinho, aperto gostoso de quem descobre que quer ter alguém e estão falando dele. Aquela sensação de formigamento pois talvez um deles saiba o que eu quero.

E eu me pego pensando em tanta coisa, mas, principalmente: "Eu me apaixonaria muito facilmente por ele (de novo)". E é verdade. Quando nos esbarramos eu sinto que poderia simplesmente cair de amores. Que estar ao teu lado nos dias frios me faria feliz. Penso que seria natural encontrar consolo nos teus olhos e conforto nos teus abraços, mesmo os mais banais.

Pois eu penso que não és mais daquelas paixões arrebatadoras. És quase uma paixão gourmet. Precisa ser saboreada, (re)descoberta lentamente. Julgo ter que te (re)conhecer, (re)aprender algo novo a cada dia, sem pressa. (Re)Descobrir aquele costume que, para mim, parecerá maravilhoso. Ler tuas expressões. E depois, acordar um dia e me descobrir apaixonada por ti (de novo). Se você permitir, te fazer se (re)apaixonar e depois, quem sabe, (re)transformar isso em amor.

Pois quando te vejo e tudo é tão atemporal, eu penso em nos cozinhar em fogo baixo até o ponto de ebulição. Não no sentido de enrolar, mas tudo por que não tenho pressa para aproveitar cada segundo de convivência ao teu lado.

Depois disso, quero viver em constante vibração das moléculas. Esperando que a cada dia que trouxer descobertas, seja que nem um café preto requentando salvando aquela madrugada fria e sonolenta. Espero que possamos nos saborear, e que tu possas facilmente se (re)apaixonar por mim e vice-versa.

sábado, 21 de junho de 2014

Em uma dessas sextas.





É que as vozes das pessoas, o cheiro do cabelo e bordões usados apenas por elas, são coisas que conquistam a sua atenção, que o tomam pelo gosto, assim, logo de cara, sem nenhum esforço. E toda vez que conhece alguém, por mais que os olhos rodem por efeito do álcool na noite, sempre pára pra observar esses caracteres, aparentemente tão triviais, mas indispensáveis, principalmente em conjunto ali.

Quando tudo misturado em uma só pessoa o cara ouve até Lucy, com flores de celofane nas mãos, sussurrar dizendo que táxis feitos de papel de jornal estão à sua espera. Dá uma volta pela memória, acabando naquela nostalgia quase que cotidiana e bem enrolada em suas neuras pretéritas.

Foi ali: Aquele braço direito que segurava uma garrafa de cerveja. Aquele braço, com aquele relógio preto na pele branca. O sorriso dado de graça, junto às gargalhadas, aos amigos. Conversas em uma noite de sexta. Sorriso de dentes bonitos. Armação grossa dos óculos cobrindo aqueles olhos investigativos. O alargador preto na orelha branca, coberto pelo cabelo longo-ondulado de castanho bem claro, quase loiro. Era simplesmente quase perfeita sem nem conhecer esse cheiro castanho-doce do cabelo, nem voz, nem bordões que ela gostava de usar.

Ele andava meio cético, não acreditava em muita gente. Nem sentia muita gente já fazia algum tempo.

Andava nostálgico também, por um tempo que não volta. Um tempo misto de sujo e felicidade. Uma felicidade suja. Irreal, criada apenas em sua cabeça. Transpassada ao coração com uma esperança gritante, uma expectativa gigante de felicidade.

Andava cego. Cego de vontade de olhar ao redor, cego pelo medo de perceber a mesmice em que havia se afundado. E o pior: Por conta própria, enfiando um pé de cada vez lentamente de olhos conformados, semi-fechados. O fato é que aquela merda toda de interesses, refúgios, aos fins de semana, de angustias que se transvestiam, cada vez mais, em cotidianas, passou de adubo a concreto. Esqueceu de olhar ao redor.

Mas foi ali, naquela hora que soube da presença do diferente. Naquele momento tudo veio à tona, ao ver aquele corpo, aquela pele, cabelos longos, relógio preto, gestos atípicos, contrastes e reflexos de luzes. Olhar oculto que investiga por entre os óculos e seus dedos de unhas azuis que insistentemente ajeitam a lente rebelde e escorregadia pelo nariz de traços firmes. Copos cheios de refúgio alcoólico espremendo um sorriso de graça pelas graças de amigos.

Será que foi isso? Foi isso tudo e só? Que fez com que deixasse a cegueira de lado? Com que tornasse a nostalgia ainda mais forte? E deixado aquele ceticismo, que, aliás, não lhe cai tão bem assim, ir embora? Será? Ele até hoje sente o desejo de descobrir o que aconteceu naquela sexta daquele mês chato que, a seu ver, contraditoriamente, nada tem a oferecer.

Contraditoriamente. Fato. Naquele dia foi lhe oferecido a dúvida, a incerteza, a inquietante sensação da tristeza e felicidade anexadas ao mesmo sorriso. Excitações, obscenidades, inveja, ciúme, luxúria, de uma paixão [não correspondida].

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Só mais uma nota mental e desafortunada.





Em momentos assim, são várias as hipóteses que se formam nas mentes bagunçadas de pessoas intimamente bagunceiras. Entre trancos e barrancos as pessoas costumam buscar situações e possíveis atitudes que justificam as mudanças ocorrentes em suas vidas, nem sempre bem-vindas.

O fato é que sentimentos e palavras a todo o momento mudam de forma. Sim, é verdade que há circunstâncias que bastante facilitam a consistência da mudança. Mas, beibe, nesse caso não se trata mais de circunstâncias, porém de sentimento. Por mais abstrato e subjetivo que isso lhe pareça, o que se está sentindo agora não é impossível de não ser mais sentido amanhã. E ponto final.

O que foi e o que não foi dito por ela, não apenas pela mudança intrometida, mas por ela, a menina de carne e osso, mexeu com as estruturas que antes serviam de base pra esses momentos rotineiros que não passam de lembranças. Boas de existir, mas, que esperadamente e muito bem avisadamente, não existem mais.


Seria saudade? Ou um puro desapego e uma necessidade quase extremista de transbordar a vontade de viver desacompanhada do caos? Bem e simplesmente poderia ser o fim daquele sentimento que agora mudou de forma. O papo é que não há definição específica. As mentes mudam, pessoas engordam e as palavras trocam de nome, de tom e principalmente, de vontade. Simples assim? Não, mas apenas assim.


sexta-feira, 11 de abril de 2014

Poema de madrugada.



Abandonos, descomeços e esmos.
Linguagem e abismo.
A fala do amor conduz em fuga.
Fugaz olhar.
Arde.
Rubros pássaros amazônicos.
Tirania do verde. Mentira de hoje.
(Vou ficar poeta a madrugada inteira. Aviso logo.)
Ainda grave.
Acordes no coração. Sons que vieram da tarde.
A chuva uiva, no telhado triste. Arde uma saudade.
Existem muitas elegias, inclusive nos teus olhos... está escrito.
É todo um caminho de elegias. 
Ah se eu fosse silêncio.
Tentativa premeditada de ser poema e pólvora.
Minhas vicissitudes se debruçam no teu olhar.
Dragões e moinhos de vento.
Tirania do mistério.
Sonhar é preciso.
Viver é defectivo.
Bom dia.
Todos querem ir, mesmo sem ter pra onde.
Os meus sapatos estão sujos dos descaminhos.
Talvez tenha acordado tarde pra vida, como muitos da minha geração.
O poeta diz que há uma pedra no caminho. Falácia do desespero e da melancolia.
Declaro ou não declaro?
Não declaro, se meu olhar me denuncia.
E que fique o mesmo traço no papel. E que fique a mesma música. E que fique nossas coisas amparadas. E que fique muito mais que a treva.
(Cansei de brincar de poeta.  Tial jovens.)



~ Texto: André Bezerra.

domingo, 9 de março de 2014

Domingo.



Acordou com os pés gelados. O sono pesado lhe impediu de puxar a coberta para si no meio da noite. Seu primeiro impulso às oito da manhã foi encolher-se sobre a cama ainda quente. Fechou os olhos lembrando-se do sonho. Das pessoas, das vozes e das risadas que fizeram parte de um pedaço da sua madrugada.

Alguns dizem que sonhos são extensões do consciente, outros afirmam que se trata de representações do inconsciente. Talvez, nesse caso, seja um misto de tudo: O vivido, o não vivido e o que – talvez – se estar por viver.

Com os pequenos olhos ainda pregados de murrinha, se espreguiçou como se nada mais tivesse importância naquela manhã de domingo. Olhou cinco minutos para o teto mal rebocado. Pensou no ontem e na pré-discussão pré-estabelecida pela pré-conversa pré-realizada muito bem pós-estabelecida.  

Sentou na beira da cama. Cruzou as pernas, esticou-se, engoliu a preguiça e seguiu viagem até o banheiro. Era hora de tirar toda a incerteza do seu corpo, desses anos e da própria vida que já basta ser incerta por si só. Até por que, quem se importa? É domingo, amor.



sábado, 8 de março de 2014

Meu amor.



Meu amor é belo na sua timidez. Na pausa simples, no olhar (miúdo) e pleno de quem já não tem mais o que dizer. Se ama e pronto, não há mais o que justificar ou esclarecer.

Um simples enroscar de dedos no meio do cochilo, só para não perder o contato. O movimento conjunto de fechar os olhos e depois abrir de novo para ver se ele realmente dormiu (eu sempre durmo primeiro). Meu amor é maravilhoso no sorriso contido.

No medo seguido de conforto, do abraço de proteção. Meu amor é tímido, tem medo. Assim como eu, tem inseguranças e muitas hesitações.

Mas meu amor é completo, é por inteiro. É uma dúvida que pensa em surgir e eu apago com um sorriso, um cheiro. Meu amor tem coragem, otimismo. Ele repousa nos braços de um só e por lá deve ficar nos dias de chuva e de sol. Principalmente sobre o meu amor, é que se faz junto, se faz a dois.

Os medos se enfrentam lado a lado e as dúvidas são tiradas sem intermediários. Eu sinto que posso olhar para o futuro com ele. Sei que quero construir muito mais ao seu lado.  Meu amor é assim, amigo. É confidente, é fiel. É dos melhores. É meu. E eu sou dele.

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