" Há mais solidão num aeroporto
que num quarto de hotel barato,
antes o atrito que o contato."
(Zeca Baleiro)

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

ao passo miúdo, a gente se (re)conhece.


O fardo da vida e meus melhores "poucos" momentos de um dia.
Para ler ao som de "oh my love" John Lennon e Yoko Ono.




"Quando você tem a maior certeza, a maior saudade, a maior alegria de sua vida,
e sente-se feliz como nunca antes..."



Estou sendo levada pela vida (mais uma vez). E o meu corpo está sofrendo seus efeitos.
As vezes considero um grande fardo. O trabalho, as tarefas o cargo.
O trânsito pertubador as vezes me faz explodir.
Ao mesmo tempo, sinto-me feliz, como nunca (nunca?...) antes.
O amor me impulsiona a ser uma pessoa melhor, e a crescer no íntimo e no coletivo.
Os melhores "poucos" momentos dos meus dias estão na compania duma pessoa chata:
Sr. Gouvêa.




"Amor é quando se mora um no outro" - Mario Quintana.

sábado, 31 de dezembro de 2011

365


Um ano tem trezentos e sessenta e cinco dias. Relativamente, parece muito tempo. E é. É tempo suficiente pra se mudar uma vida. Se fosse recapitular exatamente tudo que me ocorreu durante esses doze meses. Chegaria à conclusão de que amadureci uns cinco anos em quase trezentos e sessenta e tantos dias.

Não foram poucas as pessoas que passaram por aqui. Muitas delas passaram e me acenaram de longe. Outras entraram, sem bater e ficaram. Algumas me trouxeram presentes lindos, outras de grego. Algumas só me fizeram visitas, mas assim mesmo se fizeram marcantes, me trouxeram sorrisos e algumas lágrimas também. Pena umas terem ficado só pra um "café" e ido sem se despedir.

É incrível como a gente consegue gostar de graça de alguém, sentir necessidade da companhia, das conversas de ônibus, conversas de sofá [na Pedreirinha] e de bar [Praça da República]. Dos sorrisos, das lágrimas, do ombro. E até daquele olhar como quem diz “Que porra foi essa que fizeste?”

Essas que foram entrando sem cerimônia, escancarando a porta e me roubando sorrisos e gargalhadas de doer a barriga, ainda estão aqui. Espero que estejam sempre. E quando elas lerem esse texto saberão exatamente o quanto são importantes pra mim. Que fique claro que eu as tranquei aqui dentro, oquei?! Joguei a chave pela janela. Sei que não posso obrigar ninguém a ficar. A chave tá ali, se alguém quiser sair até pode pegar. Mas mano, me conhecendo bem, pra eu permitir que saiam vai ser foda.

Por quê? Porque elas deram voltas pelas minhas frustrações, angústias, medos. Me viram permitir meu ID aflorar e meu superego encher o saco no dia seguinte, sem que me julgassem. Ouviram meus lamentos, escutei os seus lamentos. Falamos de amores platônicos, de pai ausente, de madrastas loucas. De pais ciumentos, de sistema educacional de merda, de política, de Piaget, de gestalt-behaviorismo-psicanálise. De reggae. De rock in rio, de The Ments, Mutantes, Beatles, Smiths, The Cure, Queens, Radiohead, A Perfect Circle, Raul, Sérgio Sampaio, Chico's. De padrinhos e madrinhas dos filhos que terão. De coisas impossíveis, de amores e desamores do passado que insistem em se fazer presentes, de namoros “canoas”. Até promessas de fazer uma graduação juntos já rolou. De tanta coisa.

Se não fossem esses caras, seria difícil de arrancar sorriso do rosto que dois mil e onze me deu. Aprendi. Ensinei. Me apaixonei. Me fudi. Briguei, bati, apanhei. Errei pracaralho. Perdi esperanças e as achei flutuando nas conversas. Naquelas conversas. Nestas conversas.

É por tudo isso!

Amei e amo essas pessoas que entraram sem bater. E eu sei que eles, apesar de muitas outras rotações e translações, continuarão aqui, mesmo que não fisicamente. Mas estarão em meus pensamentos, idéias, opiniões. Por que amigo é sempre amigo. (Desculpa... Sabes do que estou falando)

Ah, e só pra não perder o costume de fim de ano:
Feliz ano novo, galera leitora desse blogue.

Abraços saudosos, Jéssica Luz.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Amar



Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar? amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso, sozinho,
em rotação universal, senão rodar também, e amar?

Amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto, o que é entrega
ou adoração expectante,
e amar o inóspito,
o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro, e o peito inerte,
e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas
ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.



(Carlos Drummond de Andrade)


Destinado a todos os que assim como eu, amam um alguém...
E para aqueles que apreciam a beleza da poesia do Drummond.
.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Mais uma vez. É só o inverno chegando.

A viagem toda, naquele coletivo-de-sempre-lotado,
pensava em todas as outras épocas assim parecidas.
Todas as lembranças que insistem em se fazer presente,
por mais inconscientes que pareçam estar.

Suas lembranças mais egoístas afloram,
junto ao clima, ao vento, ao vago vazio de um olhar
perdido no tempo – que nunca volta.


Até que o mínimo de calmaria se estabilizou em si,
pouco antes de sair do batente. Porém seu semblante mudou
imediatamente ao sentir o vento quase gelado na face.
A brisa forte vinda do céu escurecido.
Esse com constante cara de chuva, típico desta época.


Coração apertado, como de quem espera
algo há tempos. Olhos sem foco, como quem vaga o olhar
a procura do esperado. Mãos e dedos que logo anseiam
em transcrever sua dor. Essa mesma dor
causada pelo frio e pela ausência
do mais esperado psicotrópico, nunca receitado pelo doutor.


A dúvida chega. O medo se exalta.
A música transpira pelos poros abertos, arrepiados
pelo conjunto de ansiedade e frio. A libido se torna mais explícita.
Bem no momento em que seus olhos se fecham
e um olhar Preto lhe invade a mente (você).


Será impossível parar o barulho?
Ela só está querendo um pouco de sossego.


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Hoje com Chuva

Foto: Tatyane Silva.




Em dias de chuva é fácil chorar.
É fácil lembrar de pessoas especiais,
e de como é bom tentar não sentir frio nos braços de alguém.

Em dias de chuva você torce para não estar sozinho.
Ou não, você quer mesmo estar sozinho para ler aquele livro bom,
que você vem adiando a tempos por falta de disposição.

E talvez, assistir aquela comédia romântica,
só para variar um pouco
do seus filmes de suspense...

Em dias de chuva é bom não sair de casa
para não estragar o cabelo, e ficar reclamando da cidade
e de sua sombrinha que sempre te deixa na mão em dias de sufoco.

Ou melhor, em dias de chuva o bom mesmo é aproveitar
para tomar banho ao ar livre, pular feito uma criança
e receber a energia daquela água sagrada.

Em dias de chuva, eu fico olhando as poças aumentando com os pingos,
e ouço o seu barulho peculiar, sem pensar em mais nada.
Dias de chuva, apesar de serem frequentes aqui em Belém,
não costumam ser iguais pra mim. /Isso é bom!

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Poema de Madrugada

Nesses tempos de sossego o que eu mais queria era um aconchego, e quando o amor chegou e me proporcionou, veio atrasado e trazendo o riso que amplia minha felicidade.
Na frente dos amigos sem querer deixei transparecer o caso que por acaso aconteceu.
Com malícias declaradas veio com carinho e de sobressalto o desejo os invadiu, como se pudessem misturar, unir, fundir dois corpos em um.
Tudo acontecia rápido, amigos, bebidas e som, sem preocupação ela estava ali tentando prolongar as horas, os minutos para tudo.
E aquilo foi o ''tudo'' deles dois.


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A garota do vestido marrom, a mãe e o mendigo

A garotinha do vestido marrom, não parava de tagarelar, enquanto andava pela calçada, um segundo se quer a respeito do filme [aliás, ela simplesmente nunca parava]. O filme no qual sonhara a semana toda pra assistir ao lado da mãe, a cirurgiã plástica, esteticamente falando, tão ocupada com suas consultas ricas. Ricas de ausência de conteúdo.

Olívia agora andava de mãos dadas com as da mãe, tão feliz com seu vestido, empolgantemente-sorridente-estridente só de pensar que finalmente sua mãe arranjara um tempo em sua divertida agenda. Sem saber que, segundos depois, algo lhe tiraria o filme de seu foco. Benditos segundos que mudariam a vida pensante da pequena garotinha.

Logo adiante à calçada, avistara algo. De longe, no chão. Era um amontoado de panos velhos a princípio. Justificável que fosse realmente, a garota há um ano precisava de óculos. Tentara comunicar a mãe, mas o Motorola dela sempre chegava aos seus ouvidos antes que Olívia.

Foram se aproximando daquele amontoado e percebera que debaixo dele havia alguém. Alguém sentado no chão, sujo, cabelo bagunçado, com odor desagradável muito forte e uma caneca de plástico estendida na mão direita, dessas de lojinhas de um e noventa e nove, envolvida pelas mãos gastas com dedos feridos.

Sua cabecinha, tão pequenininha começara a crescer e montar uma série de pensamentos, assim, feito gente grande faz. Olhou bem para aquele cara ali jogado, olhou dentro dos olhos dele. Olhos que também a fitavam, tentando disfarçar aquele amargurado todo. Foi então que desarmara a mãe com tantas perguntas. Talvez tenha sido a primeira vez que esta prestara de fato atenção em algo que a filha houvera dito:

“Mãe, por que aquele velhinho tá sentado no chão? Ele não tem casa? Por que ele segura uma caneca? Por que têm moedas dentro dela e não um café ou suco ou aquele chá que a senhora toma? Por que eu tô vestida de vestido novo de cor bonita e ele tá com esse remendo velho de cor feia e suja? Ei mãe, por quê? Hein, mãe? Mãe!”

A mãe ouvira tudo o que Olívia dissera, mas achara mais fácil fazer o que faz sempre:

“Quieta Olívia. Anda rápido se não a gente se atrasa pro filme. A gente vai comer antes, esqueceu que eu tô com fome? Tive que passar no banco e sacar dinheiro, nem deu tempo de comer nada.”

“Mas mãe... Então por que ele não pega o cartão de crédito dele, vai no banco e pega um dinheiro pra comer alguma coisa? Ele parece que tem fome..”

Aquilo era demais pra cabecinha de Olívia. Acabara de completar cinco anos, era quase impossível uma menininha entender o porquê da existência de alguém no chão, sujo, sem dinheiro, enquanto ela, vestida e perfumada, ia ao cinema gastar o tanto que a mãe tinha.

No meio do filme, a única coisa que conseguiu pensar e dizer foi:

“Mãe? Quando a gente voltar, vamo deixar pra aquele velhinho um hambúrguer bem grandão?”

Pena que o que ela ainda desconhecia era a efemeridade das coisas. Não podia saber que poucas horas depois, o velhinho já não existiria mais.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Braços e abraço

Eu sei, no fundo, que meus braços não são compridos o suficiente. Teriam que medir quilômetros infinitos de comprimento afim de que assim pudessem enfim abraçar tudo o que quero e até mesmo o que não me ganhe pelo gosto, assim logo de cara como essas outras coisas.

Não é de tão egoísta da parte desse meu coraçãozinho, um tanto menos modesto, eu sei. Mas o fato é que só queria poder rir o tempo todo ao lado de todas essas coisas e momentos e cheiros que quero agarrar de uma só vez.

É. Também sei que é isso que faz da minha essência uma criança. Isso é típico delas. Bato pé, esperneio, grito, choro. Mas no fim acabo por admitir todos esses caracteres que pra minha faixa etária já não são mais vistos com bons olhos como quando eram na “minha época”.

Não posso deixar de lado toda a musicalidade do cheiro daqueles e desses momentos misturados em uma só cor, em cada poro do meu abraço de braços que eu sei que não medem quilômetros infinitos de comprimentos.
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