" Há mais solidão num aeroporto
que num quarto de hotel barato,
antes o atrito que o contato."
(Zeca Baleiro)

domingo, 13 de outubro de 2013

Segundo Domingo de Outubro.




Chega uma época em que não param de falar dela. É foto, roupa nova e cartazes de vários passeios. E os olhos brilhantes que avistam de longe e falam: "Ah, tô vendo ela. Égua! Como ela tá linda esse ano!".

A verdade é que ela é toda bela todos os anos, o ano inteiro. Até mesmo quando se guarda fechada em seu domo de vidro.

Ela passa mansa, posando tranquilamente, pois todos sabemos que logo ela estará em todos os perfis do Facebook, será Trending Topic no Twitter e ficará perfeita com qualquer filtro que usarem no Instagram.

Qualquer refletor lhe deixa maravilhosa e mesmo sob o sol fervente do meio dia, de Belém, ela se impõe, majestosa.

"Que horas ela chega?", "Quanto tempo ela vai demorar aqui na frente?". E todos se acotovelam para olhá-la. E lhe dão flores, promessas, prendas e cheiros. Para todos ela olha com bondade, nunca exigindo mais, sempre acalentando quem chora ao seu simples aparecimento.

Aí ela se recolhe, depois de tanto passeios, tantos rostos. Ela sobe e fica lá em cima, quietinha na sua beleza que traz tanta paz. Mas continua a receber visitas. Sempre tem quem diga: "Vou lá. Quero ver ela". Arrastados pelo poder que ela detém de nos emocionar ao simples vislumbre.

No final, todos vamos lá vê-la. É Círio de Nazaré em Belém. Feliz Círio a todos.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Faróis.

 Existem pessoas que são tipo faróis. Sim, desses faróis de praia, de ilha. Pessoas que emitem uma luz própria tão forte que atrai quem está perdido e dá conforto aos que achavam que não havia mais salvação. 
Muitas vezes eu me pergunto se todo mundo tem uma missão na vida. Se há algum objetivo específico que devemos alcançar. O chefão a ser enfrentado antes de terminar o jogo. 

Pessoas que são faróis devem decifrar isso bem cedo. Farol ilumina, sim. Mas também fica vazio por muito tempo. De vez em quando é revisitado. Alguém vai lá, limpa o interior, renova as lâmpadas e tira a poeira dos vidros. Mas depois vai embora, como todos os outros. Farol de vez em quando é só ponto turístico, não um lugar pra se morar. 



Gente farol é assim mesmo. Ilumina, guia, ajuda. Mas é difícil cuidar de um farol. É trabalhoso, requer atenção e disponibilidade. É complicado ter a luz de um farol inteiro só pra si, mas para isso, tem quem saiba domar, que sabe cuidar sem desperdiçar, e talvez seja essa a missão dessas outras pessoas.
Pois existem pessoas que são tipo cuidadores de faróis...

sábado, 14 de setembro de 2013

Além de você.


Às vezes eu acho que não estou pronta para ninguém além de você. Depois de algum tempo, quando penso que tudo se curou, a verdade me atinge como água gelada. Um conjunto de frustrações e empecilhos para que eu enfim conclua que eu não estou pronta para ninguém além de você.

Eu ainda tenho mil segredos para dividir. Muitos versos que precisamos rimar. Eu escrevi sobre tantas pessoas e no final de cada texto ao menos uma frase era você. Eu sei todas as minhas sequências de dramas nessa lástima desenfreada.

Eu compreendo todos os seus gestos em cada flor abandonada. Mas ao mesmo tempo, alguns querem esquecer, outros conversar. Muitos querem textos. Palavras, tantas letras. A cada pedido um gosto amargo sentido diretamente no coração, mas uma doçura repentina, que dura pouco, mas que vale a pena. Palavras que eternizam aquilo que há de se perder. Todas as coisas que me mostram que eu não estou pronta para ninguém, só você.

O quanto eu já vivi além de você? Tantas vezes eu cheguei ao ponto que pensei ser o limite e era apenas mais um teste, pois havia muito mais. E deve haver. Eu preciso que tenha muito mais, meu amor, além de você.

domingo, 8 de setembro de 2013

Já foi.



Quando eu era criança eu tinha aquela ideia de que meus pais nasceram adultos. Sim, eu pensava que eles não tinham sido crianças ou adolescentes como eu. E que, por isso, eles não me entendiam às vezes.
Aí a gente vai crescendo e do nada, não se tem mais quinze anos. Subitamente você não está no Ensino Médio. Aí de uma hora pra outra sua preocupação já não é mais o vestibular. Você está mais velho, no final da faculdade, sua preocupação é emprego. Quando vou sair de casa? O que quero da vida? Vou conseguir ser contratado em algum lugar? Vou casar algum dia?

Tudo que te preocupava quando pequeno de repente é irrelevante. E você vê pessoas mais novas passando pelo mesmo ciclo. O que aconteceu com a gente? Onde foi parar a magia daqueles anos em que tudo era simples, era amor, reclamações adolescentes, mágoas e paixonites que pareciam o fim só para depois já aparecer outra?

Eu sinto falta e mal saí desse tempo. Eu já tenho nostalgia de coisas que se passaram em menos de uma década ainda. É complicado falar dessas coisas sem ser clichê. Mas são apenas desabafos racionais sobre saudade de tempos mais fáceis, em que o futuro parecia tão claro quanto água direto da fonte.

Eu gostava de mim naquela época, da minha esperança, até da ingenuidade de achar que tudo seria exatamente daquele jeito para sempre. Como a vida muda, e a gente também. Mas que continuemos a crescer, sem deixar para trás aquele mundo de sonhos que só a adolescência nos permitia almejar. Esse é o mundo que a gente queria. O lugar onde eu gostaria de viver.




sábado, 24 de agosto de 2013

Sobre Paixão.


Às vezes me olhas com uns olhos gulosos de quem quer me prender, me guardar. Essa vontade tão forte me faz sorrir mas também me aflige até a ponta dos dedos. Essa tua vontade reflete na minha, mas não será concretizada pois entendes que é um capricho passageiro.
Isso me tira o ar. Fico assim pois não há absolutamente nada que eu possa fazer. Aí fico desgastada, me desdobrando em mil formas de me ligar a ti nos mínimos detalhes, poucas palavras.
E me pergunto que paixão grudenta é essa, que não satura, não descarrega. Que categoria é essa de paixão agressiva, que te quer a todo o custo e ignora todo o meu bom senso?
Pois quando te vejo sinto algo próximo da arritmia. É exagerado, mas meu coração mal consegue se conter. As pupilas dilatam tanto que mal dá pra discernir a cor real dos meus olhos. E ainda assim espero conter tanta vontade no mesmo coração, torço todos os dias pra que essa paixão se canse, esfrie e finalmente me abandone. Pois teus olhares gulosos logo cessam, mas meus contornos não cansam de buscar teus encaixes.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Sobre dançar.




Começa assim: sonhei que a gente dançava. Uma música agitada, muito sambarock. Havia água por todo lado e parecia que o mundo desabava, mas, no sonho, eu sentia que precisava dançar essa com você.

A verdade é: cada vez que você me estendia a mão para dançar eu dizia que tinha dois pés esquerdos. Quer dizer, eu tinha vergonha de não saber dançar bem. Você tinha aquele gingado, aquele dom (mentira-rs-). Era lindo ver você dançar. E no sonho eu podia ser a dançarina dos seus olhos.

Um dia, nas profundezas da galeria empoeirada da memória, você me ensinou a dançar diferente.

Apenas nós dois. Você me fez subir nos seus pés e deu até um nome para esse passo. Tinha algo a ver com estrelas e astros. Era coisa de criança, mas você se movia e eu ria alto, sentindo o cheiro do seu pescoço, pois cangote de quem se ama é aconchego, pura paixão.

E acaba que eu já não lembro mais qual música a gente dançava. E quais eram seus movimentos mágicos. Eu já nem sei quando pude admirar seus pés de bailarino. Hoje, na verdade, eu até que danço, pulo, engano. Mas valiam mesmo os passos sobre os pés. O cheiro de cangote. Algo a ver com estrelas e astros.

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sexta-feira, 21 de junho de 2013

Filmes de Romance.





Há um tempo não vejo filmes de romance. Acho bonito, até interessante, mas descarto sempre que posso.
O que há sobre filmes românticos é que eles usam a exceção. Normalmente uma pessoa larga tudo para viver um amor incerto, pelo simples sentimento de achar que aquele é o amor da sua vida. O que filmes de romance não mostram, é que, na maioria das vezes, o cômodo é bem melhor.

Gente acomodada sabe que não está com a pessoa que vai fazer seu coração palpitar todos os dias. Entende quando encontra o certo. Mas tem medo de sair daquele conforto, aquela relação que inclui a família, todo mundo gosta, todo mundo aprova.
Em filmes o cara sempre vai atrás da aventura, do talvez. A moça abandona o altar, o homem termina noivados... Enfim. Nos filmes a exceção é a regra.

A fantasia é bonita, mas não é justo que nos iludam. Não é certo achar que mesmo o possível amor da sua vida tendo outra ele pode largar tudo para ficar com você. Pois a vida real inclui outras pessoas que também tem sentimentos e vivem suas histórias.

Seria lindo se todo mundo que descobrisse não estar com a pessoa certa tivesse coragem de deixar o outro ir, mesmo que fosse para ficar só. Pois uma das coisas mais tristes é "manter" um relacionamento pelo puro medo da solidão. 

Esse texto é um apoio aos acomodados do mundo. Que se libertem se aqui não for o certo. Que aprendam que amor é pleno, completa. Todos nós merecemos viver o amor das nossas vidas, a paixão arrebatadora, que nos fez suspirar por mil noites.

Vão viver seus filmes de romance. Mas todos sempre com finais felizes.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Sobre cartas.




"Mesmo assim, não lhe pareceram necessárias tantas explicações, embora pedisse a Fermina Daza o favor de não ler a carta.

_ Claro - disse ela - No fim das contas, as cartas são de quem as escreve. Não é certo?
Ele deu um passo firme.
_ Sem dúvida - disse. - Por isso são a primeira coisa que se devolve quando há um rompimento".

Ou não. Talvez o Florentino esteja errado. Esse trecho é de um livro que li recentemente, "O amor nos tempos do cólera", de Gabriel García Márquez. Ele tem um romance inteiro feito de cartas, mil cartas, recheadas de flores, perfumes e promessas. Um amor escrito, idealizado.
Cartas são presentes. Sempre me expressei melhor escrevendo. Esse é, afinal, meu elemento. Costumava fazer cartões de aniversário gigantes há uns anos, cartas enormes, ou pequenas, mas com um conteúdo considerável.
E acredito, muito mesmo, que podemos manter amores por cartas, se apaixonar, viver um a vida do correspondente. Hoje cartas são tão subestimadas que ganhar uma já é antiquado. Mas, para mim, nada substitui uma boa carta, escrita a mão, em páginas bonitas ou arrancadas de caderno, escritas no susto do momento, inflamadas de pura paixão, ou ponderadas e quase desenhadas.
Nosso melhor e nosso pior, cartas de amor e de raiva, letra pura, essência. Guardo cartas de anos atrás, porque é um prazer reler algumas e saber que em algum momento do passado alguém pegou uma caneta e me escreveu algo. Afinal, cartas são passado, são presentes.
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